LAJEDOS, MOSTRA A TUA CARA!
“A cidade não esconde mais sua miséria
O sol que esquenta o centro também está na favela
Há muitos sonhos e alguns perdidos nesse momento
O povo grita, chora ou apenas fica em silêncio” - Mauro Rocha
A cidade
de Uruburetama no estado do Ceará, Brasil, é bela por natureza. Rodeada de
serras e vales, é banhada pelo o rio Mundaú com nascente na Serra do Mundaú,
desaguando em seu açude e percorrendo até a foz na praia do Mundaú, cidade de
Trairi-Ce. Possui uma história de 300 anos de fundação, mas há uma história sem
visibilidade, por muitas vezes ignorada, mascarada, cercada por vezes de
racismo e xenofobia pelos os próprios moradores da cidade. Esta história é da
Comunidade de Lajedos, resolvi contá-la neste post para uma reflexão de você
leitor e morador local para que saiba que o julgamento sem o conhecimento é o preconceito
mais desprezível de uma pessoa dentro da sociedade. Espero, realmente, que após
a leitura haja uma reflexão sobre os julgamentos, discriminações, preconceitos
e xenofobia. A história de um local constrói-se a partir da contribuição de
todos: ricos e pobres, patrões e empregados, homens e mulheres, religiosos e
agnósticos, trabalhadores e desempregados, pessoas com e sem escolaridade, do
morro e do asfalto. Não se pode romantizar a história e ignorar as contribuições
de todos no processo dela. A história da comunidade precisa ser conhecida,
entendida, contextualizada socialmente e respeitada.
A comunidade de Lajedos, conhecida
popularmente por “Lajeiro”, situa-se na cidade de Uruburetama, estado do Ceará,
Brasil. Faz fronteira com o centro da cidade e o acesso é através das ruas João
de Araújo Sampaio, José Pires Chaves e Rua da Paz. É uma comunidade com
território pequeno com ruas e vielas ainda não nomeadas. Moradores possuem uma
grande dificuldade em situa-se em seus endereços formalmente, pois as ruas
ainda não foram nomeadas. Lamentável saber que os legisladores municipais
atuais e de gestões passadas (é função deles) ainda não deram dignidade em pelo
menos nomear as ruas da comunidade. Isso é uma questão de cidadania, visto que os moradores
pagam seus tributos como outros da cidade e ainda não tem se quer um endereço
nomeado digno. Isso se dá também no nome do bairro, há moradores que nomeiam
Lajedos e outros Bairro da Paz. Não há formalmente a denominação correta. A
dificuldade de agentes de endemias, das companhias de água, de rede elétrica, de internet e de outros serviços em localizar especificamente os moradores em seus endereços também é uma realidade.
Lajedos
significa “piso revestido por lajes, lajeado, lajeamento”, a comunidade nasceu
a partir dessa estrutura de lajes localizada as margens direita do Cruzeiro
(morro visível por toda a cidade onde estão findadas duas cruzes). Em relatos
de moradores mais antigos do local, a comunidade se funda a partir dos
moradores Vicente Freire, Antônio Freire, Zé Manoel, João Quinto e Zé Domingos,
todos já falecidos. Inicia-se por volta dos anos de 1970 e ao decorrer das
décadas o local foi sendo povoado e popularizado. Tais moradores residiam em casas de pau a pique (técnica
construtiva antiga que consiste no entrelaçamento de madeiras fixadas no solo,
com vigas horizontais, amarradas entre si por cipós, dando origem a um grande
painel perfurado que, após ter os vãos preenchidos com barro, transforma-se em
parede) e de caminhos de difíceis acessos. O local era cercado de matagais, veredas
e chão de barro. Nos finais dos anos 70, nas primeiras povoações, existia um
local de festa onde se ouvia e dançava forró. O ritmo era tocado ao som de
sanfona, zabumba e triângulo, iluminado através de lamparinas e chão de barro
que fazia a poeira subir. Um dos poucos divertimentos que a cidade possuía na
época descrita.
A comunidade possui saneamento básico, água potável e encanada, rede elétrica e algumas casas com acesso à internet. Há trechos a quais moradores locais realizaram o trabalho, por iniciativa própria, de instalação de saneamento básico. As ruas em sua maioria são calçamentadas e bem estreitas, fora do padrão ideal para vias, outras são findadas em lajes, as casas são de alvenaria e muito próximas umas das outras. Em apenas um trecho da comunidade, há casas populares construídas na então gestão municipal do prefeito José Giuvan Pires Nunes em meados da primeira década dos anos 2000. A comunidade, por muito tempo ficou sem o serviço de coleta de lixo municipal, por esse motivo, moradores despejavam seus resíduos as margens do morro do Cruzeiro, ocasionando malefícios ao meio ambiente e aos moradores próximos. Atualmente, a coleta de lixo no local se dá duas vezes por semana e serviços de varredores de ruas raramente acontecem, segundo moradores locais.
Na área
da Saúde Pública, a comunidade conta com apenas uma agente de saúde, Sra. Cleire Luiz
dos Santos, ex-moradora do local, que dá assistência a toda comunidade. O local,
lamentavelmente, não possui posto de saúde e os moradores são assistidos pela
Unidade Básica de Saúde do bairro Nossa Senhora das Graças, a quatro quadras da
comunidade. As doenças mais comuns apresentadas pelos moradores locais são as
doenças crônicas como, diabetes e hipertensão. A gravidez na adolescência
também é uma realidade muito comum na comunidade. Gerada por vários fatores
externos que influenciam diretamente na vida destes adolescentes. Não há grupos
de apoio ou política de prevenção efetiva no local. Por vezes, não há
preservativos disponíveis nas Unidades de Saúde e o planejamento familiar, uma
das vertentes da Saúde Pública é mera falácia. Precocemente, adolescentes sem
nenhuma estrutura familiar, psicológica e assistencial do poder público vão
tornando-se pais e vivenciando com muitas dificuldades a criação de seus filhos
que vão ter que lhe dá com as agruras de uma sociedade desigual e potencialmente capitalista. Os idosos
também são desassistidos. Não há políticas públicas voltadas aos mesmos.
Na área
da Educação, a comunidade não possui nenhuma creche ou escola. Crianças que
necessitam de uma creche precisam deslocar-se a uma rua divisa da comunidade. A
cidade possui uma única creche a qual não consegue suprir os atendimentos de
todo o município. Alunos da Educação Infantil também precisam desloca-se para
ruas divisas, assim como os alunos do Ensino Fundamental I e II e Ensino Médio. Há um problema bem preocupante no município, algumas escolas da rede pública municipal, para ingressar nas mesmas, precisa-se mostrar um comprovante de endereço, se for morador da comunidade não há chance de ingresso. Algo semelhante acontece em algumas escolas estaduais do município, o aluno só ingressa pelo o bom desempenho somativo de todo o ensino fundamental. Alunos da comunidade que não possui uma escola específica no próprio local, ficam mais uma vez em desvantagem frente a outros do mesmo município. Não há projetos educacionais ou culturais no local. Não há bibliotecas e nem espaços de leituras. Muitos jovens não conseguem
chegar sequer ao Ensino Médio, dos que conseguem, poucos o conclui. Apenas a agente de
saúde da comunidade possui formação superior. No ano de 1987, Pe. Arnaldo Peternazzi, ex-pároco da cidade, conhecedor assíduo da realidade local, residente na Itália, fundou através da Associação Amigos do Brasil a EEIF Francesco e Selene Peternazzi para atender inicialmente alunos da comunidade dos Lajedos e realizar um trabalho assistencialista, mesmo não sendo fundada no território da própria comunidade. A escola inicialmente localizava-se nas proximidades, na Rua Cel. João Antônio, Centro, atualmente é o Núcleo Educacional Luz e Vida, e posteriormente a escola mudou-se de bairro localizando-se no Sítio Ubatuba e atendendo um público discente variado.
Na cultura, a comunidade é uma das poucas e raras na cidade que ainda resiste em suas manifestações culturais. Nos meses de dezembro e janeiro, um grupo formado pelos os moradores se unem na construção de um boi-bumbá (festa do folclore popular brasileiro, com personagens humanos e animais fantásticos, que gira em torno de uma lenda sobre a morte e ressurreição de um boi) e o festeja por toda a cidade. Um dos idealizadores dessa cultura é o sr. Antônio Moura Freitas, que herdou de parentes e outros brincantes moradores antigos da comunidade. A manifestação cultural resiste a mais de 25 anos no município. A preparação estrutural do boi e de outros personagens folclóricos como a ema, a burrinha, a velha e o caboré é feita pelos idealizadores ainda no mês de junho. Usam materiais variados como: madeira de mutambeira, arames, esponjas, tecidos e outros. Não possuem ajudam financeira de nenhum órgão municipal, estadual e federal e nem da própria Secretaria de Cultura Municipal. Tudo é construído pelos moradores locais utilizando-se de materiais recicláveis disponíveis. O boi não possui um nome próprio, todos os anos os brincantes o nomeia com nomes aleatórios. São em torno de 20 brincantes (todos moradores locais) ao redor do boi que utilizam-se de rimas e instrumentos de percussão para fazer o boi dançar. Saem as ruas da cidade e os moradores que desejam a dança em frente suas casas pagam em torno de R$ 20,00 para o espetáculo. Todo o dinheiro arrecadado durante o período da manifestação cultural é dividido entre eles e revestido em um almoço num momento de confraternização dos brincantes e da comunidade, que se dá no dia da "matança" do boi - dia final da apresentação onde o boi e todos os outros personagens são desfeitos e guardados, encerrando as apresentações anual. Tal festejo já virou tradição e é muito aguardado por todos.
No lazer, a comunidade não possui
praça pública e nem espaços de entretenimentos. Não há projetos de desporto
para crianças e jovens. O bairro vizinho é espaço onde as crianças e adolescentes se
deslocam para a prática de esporte como o futebol. A quadra desse bairro
citado foi destruída e desativada em anos passados e no ano de 2020 (ano
eleitoral) foi reconstruída novamente. As crianças da comunidade brincam
livremente nas ruas em jogos de bola, passeios de bicicletas, empinamento de pipas,
brincadeiras de rodas e correrias. Aos jovens, restam escutar músicas em seus
aparelhos eletrônicos, games em seus celulares e acesso as redes sociais. Aos
demais, conversas nas calçadas são suas melhores distrações.
A força de trabalho e renda
familiar da comunidade vem da maior parte da indústria de transformação e dos
projetos assistencialistas do Governo Federal. Alguns moradores trabalham nas
fábricas de Castanha e de Calçados, as duas únicas indústrias da cidade. Não há
comércios ou lojas de médio ou grande porte no local. Muitos trabalham na
informalidade com pequenas vendas variadas, como: mercearias, bares, pequenas
lojas, vendas de alimentos em calçadas, além de trabalhos com reciclagens.
No que tange a espiritualidade, a
comunidade possui uma pequena capela em homenagem a São e Pedro, São Paulo e Santa Luzia,
santos considerados pela a igreja católica romana. A capela foi erguida em julho
de 2014 por iniciativas dos senhores José Lopes de Oliveira, vulgo Sr. Riba e
Geraldo Ferreira da Silva, ambos moradores do local. O local da instalação da
capela era um imóvel desativado e por intermédio dos dois senhores foi
realizada uma doação do imóvel pelo Sr. Alrino Ferreira Cunha (in memoriam). Após a doação, os líderes locais e demais pessoas da comunidade,
juntamente com um grupo de oração Voluntários de Deus, conseguiram angariar
recursos para o funcionamento da mesma. A capela foi inaugurada em 12 de
dezembro de 2014. A festa religiosa em homenagem aos santos padroeiros do local
acontece, anualmente, entre os dias 29 de junho a 10 de julho. Há também, um
tríduo em homenagem a Santa Luzia que se realiza anualmente nos dias 11, 12 e 13
de dezembro. Todos os sábados, às 16:00 hs, são rezados terços na capela. A
comunidade possui apenas uma igreja evangélica e não há manifestações religiosas de
outras religiões ou credos.
Acerca
dos problemas de violência existentes na comunidade, a mesma apresenta
dificuldades que em outras partes da cidade se sucede. A falta de segurança
pública põe em vulnerabilidade não só a comunidade, mas todo o município. São
questões bem mais complexas e que precisam ser interpretadas e solucionadas dentro de suas
contextualidades sociais.
Cresci
ouvindo pessoas rotular a Comunidade dos Lajedos com seus prejulgamentos. Muitos
moradores relatam ter sofrido ou sofrer algum tipo de preconceito, discriminação,
racismo e xenofobia por pessoas da cidade pelo o simples fato de morar no local.
Não moro na comunidade, mais sou do município e temos todos as mesmas raízes e
compartilhamos da mesma história. O problema de um bairro ou de uma comunidade
é problema de todos. Mais do que julgamentos e preconceitos mesquinhos, a
comunidade precisa de apoio, de saúde, de educação, de cultura, de desporto, de
lazer, de infraestrutura, de segurança, de fortalecimento da economia, de
melhorias, de qualidade de vida, enfim, de soluções. Apontar e julgar são para
os que não entenderam ainda que vivemos em uma sociedade que não é igualitária,
nem tão pouco justa. Onde as desigualdades sociais são gritantes, mas muitos
preferem a miopia em vez de ser parte da solução. O poder público municipal,
estadual e federal tem uma parcela enorme de culpa nessa realidade. Há anos a
comunidade foi fundada e as melhorias sociais para o local ficam apenas nos
discursos rasos e enganadores dos políticos que visitam o local somente em ano
eleitoral e quando estão no poder virão as costas para a mesma, ignorando seus
problemas e dificuldades. É preciso que a comunidade se una e se fortaleça, que
reivindique junto ao poder público seus direitos e suas melhorias para o local. É preciso que a comunidade tenha um representante político que a represente, e que esse candidato seja da própria comunidade. Todos pagam impostos como os demais da cidade e esses impostos deveriam ser
transformados em melhorias para o local. É preciso que os moradores da cidade tenham empatia e façam o mesmo. O progresso do município se dará quando os problemas e
dificuldades dos bairros, comunidades e serras forem todos sanados. É preciso pensar no
coletivo e abraçar a causa!





















Parabéns pelo seu trabalho não moro na comunidade mas conheço de perto a realidade desta da mesma
ResponderExcluirTemos que unir forças para exigir do Poder Público melhorias para o local. A comunidade crescendo, todos da cidade ganham.
ExcluirParabéns, Paulinho , mais um grande trabalho .
ResponderExcluirObrigado! É sempre relevante esse tipo de trabalho.
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