LAJEDOS, MOSTRA A TUA CARA!


“A cidade não esconde mais sua miséria
O sol que esquenta o centro também está na favela
Há muitos sonhos e alguns perdidos nesse momento
O povo grita, chora ou apenas fica em silêncio” - 
Mauro Rocha


Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020. 

A cidade de Uruburetama no estado do Ceará, Brasil, é bela por natureza. Rodeada de serras e vales, é banhada pelo o rio Mundaú com nascente na Serra do Mundaú, desaguando em seu açude e percorrendo até a foz na praia do Mundaú, cidade de Trairi-Ce. Possui uma história de 300 anos de fundação, mas há uma história sem visibilidade, por muitas vezes ignorada, mascarada, cercada por vezes de racismo e xenofobia pelos os próprios moradores da cidade. Esta história é da Comunidade de Lajedos, resolvi contá-la neste post para uma reflexão de você leitor e morador local para que saiba que o julgamento sem o conhecimento é o preconceito mais desprezível de uma pessoa dentro da sociedade. Espero, realmente, que após a leitura haja uma reflexão sobre os julgamentos, discriminações, preconceitos e xenofobia. A história de um local constrói-se a partir da contribuição de todos: ricos e pobres, patrões e empregados, homens e mulheres, religiosos e agnósticos, trabalhadores e desempregados, pessoas com e sem escolaridade, do morro e do asfalto. Não se pode romantizar a história e ignorar as contribuições de todos no processo dela. A história da comunidade precisa ser conhecida, entendida, contextualizada socialmente e respeitada.

  A comunidade de Lajedos, conhecida popularmente por “Lajeiro”, situa-se na cidade de Uruburetama, estado do Ceará, Brasil. Faz fronteira com o centro da cidade e o acesso é através das ruas João de Araújo Sampaio, José Pires Chaves e Rua da Paz. É uma comunidade com território pequeno com ruas e vielas ainda não nomeadas. Moradores possuem uma grande dificuldade em situa-se em seus endereços formalmente, pois as ruas ainda não foram nomeadas. Lamentável saber que os legisladores municipais atuais e de gestões passadas (é função deles) ainda não deram dignidade em pelo menos nomear as ruas da comunidade. Isso é uma questão de cidadania, visto que os moradores pagam seus tributos como outros da cidade e ainda não tem se quer um endereço nomeado digno. Isso se dá também no nome do bairro, há moradores que nomeiam Lajedos e outros Bairro da Paz. Não há formalmente a denominação correta. A dificuldade de agentes de endemias, das companhias de água, de rede elétrica, de internet e de outros serviços em localizar especificamente os moradores em seus endereços também é uma realidade. 


A localização é próxima a área verde e a Capela de São Pedro, São Paulo e Santa Luzia
Ilustração: Google Maps


Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.

Lajedos significa “piso revestido por lajes, lajeado, lajeamento”, a comunidade nasceu a partir dessa estrutura de lajes localizada as margens direita do Cruzeiro (morro visível por toda a cidade onde estão findadas duas cruzes). Em relatos de moradores mais antigos do local, a comunidade se funda a partir dos moradores Vicente Freire, Antônio Freire, Zé Manoel, João Quinto e Zé Domingos, todos já falecidos. Inicia-se por volta dos anos de 1970 e ao decorrer das décadas o local foi sendo povoado e popularizado. Tais moradores residiam em casas de pau a pique (técnica construtiva antiga que consiste no entrelaçamento de madeiras fixadas no solo, com vigas horizontais, amarradas entre si por cipós, dando origem a um grande painel perfurado que, após ter os vãos preenchidos com barro, transforma-se em parede) e de caminhos de difíceis acessos. O local era cercado de matagais, veredas e chão de barro. Nos finais dos anos 70, nas primeiras povoações, existia um local de festa onde se ouvia e dançava forró. O ritmo era tocado ao som de sanfona, zabumba e triângulo, iluminado através de lamparinas e chão de barro que fazia a poeira subir. Um dos poucos divertimentos que a cidade possuía na época descrita.   


Acesso pela Rua João de Araújo Sampaio
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Acesso pela Rua João de Araújo Sampaio
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Acesso pela rua José Pires Chaves
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.

A comunidade possui saneamento básico, água potável e encanada, rede elétrica e algumas casas com acesso à internet. Há trechos a quais moradores locais realizaram o trabalho, por iniciativa própria, de instalação de saneamento básico. As ruas em sua maioria são calçamentadas e bem estreitas, fora do padrão ideal para vias, outras são findadas em lajes, as casas são de alvenaria e muito próximas umas das outras. Em apenas um trecho da comunidade, há casas populares construídas na então gestão municipal do prefeito José Giuvan Pires Nunes em meados da primeira década dos anos 2000. A comunidade, por muito tempo ficou sem o serviço de coleta de lixo municipal, por esse motivo, moradores despejavam seus resíduos as margens do morro do Cruzeiro, ocasionando malefícios ao meio ambiente e aos moradores próximos. Atualmente, a coleta de lixo no local se dá duas vezes por semana e serviços de varredores de ruas raramente acontecem, segundo moradores locais.  



Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.

Na área da Saúde Pública, a comunidade conta com apenas uma agente de saúde, Sra. Cleire Luiz dos Santos, ex-moradora do local, que dá assistência a toda comunidade. O local, lamentavelmente, não possui posto de saúde e os moradores são assistidos pela Unidade Básica de Saúde do bairro Nossa Senhora das Graças, a quatro quadras da comunidade. As doenças mais comuns apresentadas pelos moradores locais são as doenças crônicas como, diabetes e hipertensão. A gravidez na adolescência também é uma realidade muito comum na comunidade. Gerada por vários fatores externos que influenciam diretamente na vida destes adolescentes. Não há grupos de apoio ou política de prevenção efetiva no local. Por vezes, não há preservativos disponíveis nas Unidades de Saúde e o planejamento familiar, uma das vertentes da Saúde Pública é mera falácia. Precocemente, adolescentes sem nenhuma estrutura familiar, psicológica e assistencial do poder público vão tornando-se pais e vivenciando com muitas dificuldades a criação de seus filhos que vão ter que lhe dá com as agruras de uma sociedade desigual e potencialmente capitalista. Os idosos também são desassistidos. Não há políticas públicas voltadas aos mesmos.

Na área da Educação, a comunidade não possui nenhuma creche ou escola. Crianças que necessitam de uma creche precisam deslocar-se a uma rua divisa da comunidade. A cidade possui uma única creche a qual não consegue suprir os atendimentos de todo o município. Alunos da Educação Infantil também precisam desloca-se para ruas divisas, assim como os alunos do Ensino Fundamental I e II e Ensino Médio. Há um problema bem preocupante no município, algumas escolas da rede pública municipal, para ingressar nas mesmas, precisa-se mostrar um comprovante de endereço, se for morador da comunidade não há chance de ingresso. Algo semelhante acontece em algumas escolas estaduais do município, o aluno só ingressa pelo o bom desempenho somativo de todo o ensino fundamental. Alunos da comunidade que não possui uma escola específica no próprio local, ficam mais uma vez em desvantagem frente a outros do mesmo município. Não há projetos educacionais ou culturais no local. Não há bibliotecas e nem espaços de leituras. Muitos jovens não conseguem chegar sequer ao Ensino Médio, dos que conseguem, poucos o conclui. Apenas a agente de saúde da comunidade possui formação superior. No ano de 1987, Pe. Arnaldo Peternazzi, ex-pároco da cidade, conhecedor assíduo da realidade local, residente na Itália, fundou através da Associação Amigos do Brasil a EEIF Francesco e Selene Peternazzi para atender inicialmente alunos da comunidade dos Lajedos e realizar um trabalho assistencialista, mesmo não sendo fundada no território da própria comunidade. A escola inicialmente localizava-se nas proximidades, na Rua Cel. João Antônio, Centro, atualmente é o Núcleo Educacional Luz e Vida, e posteriormente a escola mudou-se de bairro localizando-se no Sítio Ubatuba e atendendo um público discente variado.  

Na cultura, a comunidade é uma das poucas e raras na cidade que ainda resiste em suas manifestações culturais. Nos meses de dezembro e janeiro, um grupo formado pelos os moradores se unem na construção de um boi-bumbá (festa do folclore popular brasileiro, com personagens humanos e animais fantásticos, que gira em torno de uma lenda sobre a morte e ressurreição de um boi) e o festeja por toda a cidade. Um dos idealizadores dessa cultura é o sr. Antônio Moura Freitas, que herdou de parentes e outros brincantes moradores antigos da comunidade. A manifestação cultural resiste a mais de 25 anos no município. A preparação estrutural do boi e de outros personagens folclóricos como a ema, a burrinha, a velha e o caboré é feita pelos idealizadores ainda no mês de junho. Usam materiais variados como: madeira de mutambeira, arames, esponjas, tecidos e outros.  Não possuem ajudam financeira de nenhum órgão municipal, estadual e federal e nem da própria Secretaria de Cultura Municipal. Tudo é construído pelos moradores locais utilizando-se de materiais recicláveis disponíveis.  O boi não possui um nome próprio, todos os anos os brincantes o nomeia com nomes aleatórios. São em torno de 20 brincantes (todos moradores locais) ao redor do boi que utilizam-se de rimas e instrumentos de percussão para fazer o boi dançar.  Saem as ruas da cidade e os moradores que desejam a dança em frente suas casas pagam em torno de R$ 20,00 para o espetáculo. Todo o dinheiro arrecadado durante o período da manifestação cultural é dividido entre eles e revestido em um almoço num momento de confraternização dos brincantes e da comunidade, que se dá no dia da "matança" do boi - dia final da apresentação onde o boi e todos os outros personagens são desfeitos e guardados, encerrando as apresentações anual. Tal festejo já virou tradição e é muito aguardado por todos.


"Cabeça do Boi" - Preparativos para os Festejos de 2020.
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


"Cabeça do Boi" - Preparativos para os Festejos de 2020.
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


"Ema" - Preparativos para os Festejos de 2020.
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.

No lazer, a comunidade não possui praça pública e nem espaços de entretenimentos. Não há projetos de desporto para crianças e jovens. O bairro vizinho é espaço onde as crianças e adolescentes se deslocam para a prática de esporte como o futebol. A quadra desse bairro citado foi destruída e desativada em anos passados e no ano de 2020 (ano eleitoral) foi reconstruída novamente. As crianças da comunidade brincam livremente nas ruas em jogos de bola, passeios de bicicletas, empinamento de pipas, brincadeiras de rodas e correrias. Aos jovens, restam escutar músicas em seus aparelhos eletrônicos, games em seus celulares e acesso as redes sociais. Aos demais, conversas nas calçadas são suas melhores distrações. 


Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.

A força de trabalho e renda familiar da comunidade vem da maior parte da indústria de transformação e dos projetos assistencialistas do Governo Federal. Alguns moradores trabalham nas fábricas de Castanha e de Calçados, as duas únicas indústrias da cidade. Não há comércios ou lojas de médio ou grande porte no local. Muitos trabalham na informalidade com pequenas vendas variadas, como: mercearias, bares, pequenas lojas, vendas de alimentos em calçadas, além de trabalhos com reciclagens.


Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.

No que tange a espiritualidade, a comunidade possui uma pequena capela em homenagem a São e Pedro, São Paulo e Santa Luzia, santos considerados pela a igreja católica romana. A capela foi erguida em julho de 2014 por iniciativas dos senhores José Lopes de Oliveira, vulgo Sr. Riba e Geraldo Ferreira da Silva, ambos moradores do local. O local da instalação da capela era um imóvel desativado e por intermédio dos dois senhores foi realizada uma doação do imóvel pelo Sr. Alrino Ferreira Cunha (in memoriam). Após a doação, os líderes locais e demais pessoas da comunidade, juntamente com um grupo de oração Voluntários de Deus, conseguiram angariar recursos para o funcionamento da mesma. A capela foi inaugurada em 12 de dezembro de 2014. A festa religiosa em homenagem aos santos padroeiros do local acontece, anualmente, entre os dias 29 de junho a 10 de julho. Há também, um tríduo em homenagem a Santa Luzia que se realiza anualmente nos dias 11, 12 e 13 de dezembro. Todos os sábados, às 16:00 hs, são rezados terços na capela. A comunidade possui apenas uma igreja evangélica e não há manifestações religiosas de outras religiões ou credos.


Frente da Capela São Pedro, São Paulo e Santa Luzia
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Interior da Capela São Pedro, São Paulo e Santa Luzia
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Altar da Capela São Pedro, São Paulo e Santa Luzia
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.


Assembléia de Deus Templo Central - Congregação Bairro da Paz
Foto: Prof. Esp. Paulo Mattos. 2020.

Acerca dos problemas de violência existentes na comunidade, a mesma apresenta dificuldades que em outras partes da cidade se sucede. A falta de segurança pública põe em vulnerabilidade não só a comunidade, mas todo o município. São questões bem mais complexas e que precisam ser interpretadas e solucionadas dentro de suas contextualidades sociais.    

Cresci ouvindo pessoas rotular a Comunidade dos Lajedos com seus prejulgamentos. Muitos moradores relatam ter sofrido ou sofrer algum tipo de preconceito, discriminação, racismo e xenofobia por pessoas da cidade pelo o simples fato de morar no local. Não moro na comunidade, mais sou do município e temos todos as mesmas raízes e compartilhamos da mesma história. O problema de um bairro ou de uma comunidade é problema de todos. Mais do que julgamentos e preconceitos mesquinhos, a comunidade precisa de apoio, de saúde, de educação, de cultura, de desporto, de lazer, de infraestrutura, de segurança, de fortalecimento da economia, de melhorias, de qualidade de vida, enfim, de soluções. Apontar e julgar são para os que não entenderam ainda que vivemos em uma sociedade que não é igualitária, nem tão pouco justa. Onde as desigualdades sociais são gritantes, mas muitos preferem a miopia em vez de ser parte da solução. O poder público municipal, estadual e federal tem uma parcela enorme de culpa nessa realidade. Há anos a comunidade foi fundada e as melhorias sociais para o local ficam apenas nos discursos rasos e enganadores dos políticos que visitam o local somente em ano eleitoral e quando estão no poder virão as costas para a mesma, ignorando seus problemas e dificuldades. É preciso que a comunidade se una e se fortaleça, que reivindique junto ao poder público seus direitos e suas melhorias para o local. É preciso que a comunidade tenha um representante político que a represente, e que esse candidato seja da própria comunidade. Todos pagam impostos como os demais da cidade e esses impostos deveriam ser transformados em melhorias para o local. É preciso que os moradores da cidade tenham empatia e façam o mesmo. O progresso do município se dará quando os problemas e dificuldades dos bairros, comunidades e serras forem todos sanados. É preciso pensar no coletivo e abraçar a causa! 



Texto: Prof. Paulo Roberto Mattos
Colaboradores/Depoimentos: José Lopes de Oliveira e Antônio Moura Freitas


Você já é conhecedor da história do seu bairro? Conhece sobre sua fundação e sobre sua evolução?

Comentários

  1. Parabéns pelo seu trabalho não moro na comunidade mas conheço de perto a realidade desta da mesma

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Temos que unir forças para exigir do Poder Público melhorias para o local. A comunidade crescendo, todos da cidade ganham.

      Excluir
  2. Parabéns, Paulinho , mais um grande trabalho .

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

130 anos de Uruburetama, o que a cidade tem para comemorar?

Escola Normal: Patrimônio Histórico-Educacional de Uruburetama

Por que a cidade de Uruburetama no Ceará, com 300 anos de história, ainda não tem um museu?