Cemitério de Uruburetama: Patrimônio Sentimental, Histórico, Cultural e Religioso

Há um patrimônio sentimental, histórico, cultural e religioso muito curioso e instigante na cidade interiorana de Uruburetama no estado do Ceará, Brasil. Trata-se de um cemitério, na verdade é o único cemitério que a cidade possui. O município completa 300 anos de fundação em 2020, fundado em 19 de novembro de 1720. O cemitério público municipal foi construído no século XIX no ano de 1869 por iniciativa do Capitão Gualberto Guimarães e pelo Capelão Padre João Francisco Dias Nogueira, padre pioneiro da paróquia, onde o mesmo foi sepultado na capela frontal do cemitério. Soares Bulcão, em artigo na Revista Trimensal na seção titulada "Arraial (Villa de S. João da Uruburetama)", descreve o seguinte:

Em 21 de dezembro de 1867 chegara ao Arraial o Rev. Padre João Francisco Dias Nogueira para a construção do cemitério (...) fato confirmado no livro de notas do juiz de Paz do Arraial, sob nº 2, de 27 de maio de 1870. Outra provisão eclesiástica de 3 de novembro de 1868, concedeu ao Capitão João Gualberto de Oliveira Guimarães, proprietário e morador na Povoação do Arraial, a licença que o mesmo impetrara em petição de 27 de outubro, para construir de tijolo um cemitério naquela povoação, em substituição ao de pau a pique ali levantado antigamente, alegando que uma vez fora outro levantado e benzido pelo padre João da Silva Braga.

Soares Bulcão em seus relatos descreve com precisão a carta do Capitão João Gualberto de Oliveira Guimarães ao bispo do Ceará solicitando a construção do cemitério na cidade: 

Exmo. Revmo. Sr. Bispo do Ceará. O Capitão João Gualberto de Oliveira Guimarães, paroquiano da Freguesia da Imperatriz, proprietário, morador na povoação do Arraial, possuído da devoção de São João Batista, de acordo com todos os habitantes deste lugar, tem projetado fazer de tijolo o cemitério que o povo antigamente fez cercado de pau a pique, cuja maior parte da madeira o tempo consumiu; e assim os restos mortais dos fiéis cristãos expostos aos animais; portanto deseja o suplicante melhorar a sorte dos cadáveres, e como para levantar cemitério seja necessário licença do Prelado Diocesano, imploro essa graça alegando que uma vez já foi ali levantado e benzido um cemitério pelo Padre João Tabosa da Silva Braga, porém não obstante rogo de novo que a vista da informação do seu respectivo vigário V. Ex.a. Rev.mo. mande passar provisão para dito fim, pelo que o suplicante E. M. povoação do Arraial 27 de outubro de 1868. Assina João Gualberto de Oliveira Guimarães.

Com mais detalhes, Bulcão detalha a resposta da arquidiocese ao pedido:

Informação: Exmo. Revmo. Sr. A cerca do assunto da petição supra, cumpre-me informar a V. Ex. Revma. que acho muito justo e conveniente que o suplicante meu paroquiano leve a efeito a obra do cemitério que juntamente com os outros habitantes desta povoação de São João do Arraial e sob a administração de seu Capelão o Revdo. João Francisco Dias Nogueira, pretendem construir dando maior espaço ao que já existe, cercado de madeira; e mandando V. Excia. Revma. passar a competente provisão, se digne também dar comissão para benzer-se a mencionada obra. Assina: O vigário Pedro Ferreira de Mello. Despacho: Passe Provisão. Fortaleza, 3 de novembro de 1868, Brasil. 

Assim, a história da construção do cemitério se sucedeu. O mesmo, recebeu o nome de São João Batista, em homenagem ao santo padroeiro da cidade que é festejado tradicionalmente dos dias 14 a 24 de junho. Já são 151 anos desde sua criação a qual os moradores falecidos são enterrados nesse mesmo local. Há mais de um século e meio o local acolhe histórias finais terrenas de pessoas. Já presenciou despedidas, lágrimas e partidas dolorosas. O local já testemunhou enterros em redes com ajudantes trazendo os corpos atravessados em estacas de madeira, cenas comuns em tempos remotos no Ceará. Bem como muitas famílias enterraram seus bebês recém-nascidos em caixões de papelão enfeitados de papel crepom branco ou azul com uma coroa de anjinho na cabeça dos indefesos, isso numa triste realidade do Ceará nos finais dos anos 90 e início dos anos 2000 quando a mortalidade infantil assolou todo o estado e a região nordeste do país. Todas as famílias do município e de municípios vizinhos que faziam parte do território possuem entes queridos enterrados nesse sepulcrário. Moradores relatam que, antes do cemitério ser construído, os corpos já eram enterrados no local a qual era rodeado por um intenso matagal.   

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.

Cemitério Público São João Batista, localizado na Rua João da Cruz Menezes, Centro - Uruburetama-Ce. 

Foto: D. Maria Luiza (moradora local) 

Cemitério Público São João Batista, localizado na Rua João da Cruz Menezes, Centro - Uruburetama-Ce.

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.

Capela Frontal Principal

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.
Cruz no Interior da Capela Frontal 

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.

Placa em homenagem ao Pe. João Francisco Dias Nogueira, capelão de Uruburetama. Nascido em 26 de maio de 1816, falecido e enterrado no local em 28 de março de 1876. 

Na parte histórica, o cemitério é de estilo tradicional das necrópoles com jazidos e monumentos de mármores. O local abriga pessoas ilustres da cidade como: políticos, legisladores, juízes, grades comerciantes... como assim também, abriga inúmeras “Marias”, “Joãos”, “Rosas”, “Franciscos”... pessoas simples, importantes para as famílias que tiveram que conviver com suas ausências. Esses locais nos levam uma reflexão gigantesca, lá estão todos juntos: pobres e ricos, negros e brancos, homens, mulheres e homossexuais, crianças e idosos. A importância econômica, a cor e o gênero já não importam mais. Descansam todos em um mesmo ambiente. Já diziam nossos avós: A única coisa que temos certo em nossa vida é que um dia partiremos, do pó viemos ao pó retornaremos. Isso nos leva a refletir que em nossa sociedade temos sim um local comum a todos. Ali as diferenças deixam todos iguais.

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.
Parte Interna do Cemitério. 

Relatos de funcionários do cemitério, de acordo com uma contagem no ano de 2019, há cerca de um pouco mais de 450 jazigos no total. Não há um número exato de quantas pessoas estão sepultadas no local, já que para cada jazigo há vários corpos sepultados. Para o controle de sepultamento os funcionários utilizam um caderno de anotações, não há um sistema informatizado para tal função.   

Foto Acervo - Disponibilizada por Kairo Mendes. Dezembro de 1984.

O conceito de cemitério é o seguinte: lugar onde são sepultados os cadáveres. Na maioria dos casos, os cemitérios são lugares de prática religiosa. A palavra deriva do grego que significa “pôr a jazer” ou “fazer deitar”, foi dada pelos primeiros cristãos aos terrenos destinados à sepultura de seus mortos. Mas na cidade de Uruburetama, o significado vai além do descrito. Moradores locais estimam tanto na parte sentimental, religiosa como também na parte de lazer e de entretenimento. Verdade! O local possui uma espécie de praça na parte exterior, conhecida por populares como “Calçada do Cemitério”. Moradores mais próximos se divertem do pôr do sol ao final da noite. Conversas entre amigos, jogos de baralho, jogo do bicho, discussões políticas, brigas, encontros, namoros, brincadeiras infantis, jogos de bola, passeios de bicicleta, barracas com vendas de alimentos e houve-se tempos em que aconteciam feiras escolares de uma unidade escolar vizinha ao local, entre outros vários eventos que o local já propiciou. Há também um telefone comunitário a qual durante muito tempo serviu como principal meio de comunicação para os moradores mais próximos. Ouviam-se gritos de quem atendia ao telefone chamando a pessoa solicitada.  Sem falar nos bares e comércios próximos do local dando um fluxo de pessoas e movimentando ainda mais o ambiente. Tudo isso descreve a parte feliz e alegre que o local proporciona aos moradores. Isso é instigante! Um local de contrastes entre a tristeza e a alegria.

Na parte externa do local, há relatos que em tempos remotos crianças da redondeza tomavam banhos felizes em um tanque instalado para serviços gerais de jardinagem e de sepultamento. Uma espécie de piscina para a criançada. Era comum crianças pularem o muro do cemitério para tomarem banhos no tanque a qualquer hora do dia. 

Foto: Kairo Mendes.

Quando a cidade possuía um presídio e haviam fugas, muitos presos tinham o cemitério como esconderijos. Até mesmos fugitivos da cidade por algum motivo tinham o cemitério um local ideal. Era muito comum populares presenciarem cenas policiais de prisões de fugitivos dentro do local.  Sem falar nos roubos de utensílios que aconteciam com frequência, bem como até relações sexuais praticadas por casais nas superfícies das tumbas.  O local também servia de palco para práticas de magia negra. Moradores, coveiros e funcionários relatam ter encontrados por diversas vezes elementos associados a magia negra no local. Lendas e mistérios também rodeiam o ambiente. Vozes e mulher vestida de branco a meia noite são alguns dos relatos. Há quem evite passar por frente ao local depois da meia noite e há aqueles que sempre fazem o sinal da cruz quando passam a qualquer hora do dia por ele para garantir a benção. Contam-se ainda que, quando uma pessoa é enterrada com a cabeça virada no sentido da entrada do cemitério outras pessoas morrerão em pouco tempo e haverá vários outros enterros. Enquanto não enterrar da maneira "correta" a cidade será assolada por essa imprecação. 

Foto: Kairo Mendes.

Foto: Kairo Mendes.

Foto: Kairo Mendes.

Foto: Kairo Mendes.

Há também algo muito preocupante que se sucede por muito tempo no local: os lixos com resíduos mortais. Funcionários fazem com frequência a limpeza da parte interior do local e expõe os resíduos na parte externa muito próximo de casas residenciais da vizinhança. Isso reflete diretamente na saúde pública da cidade por serem potenciais contaminadores do meio ambiente. Esses resíduos não humanos oriundos de exumação, por exemplo, são altamente contaminados e devem ter destinação adequada, algo que não acontece na cidade. No período de janeiro a junho, quadra invernosa do Ceará, esses resíduos deixados soltos e tumultuados em frente ao local tendem a proliferar ainda mais e contaminar ruas próximas, pois o cemitério localiza-se em uma área alta e o lixo é levado pelas as águas da chuva agravando ainda mais o problema.  Não há um tratamento específico e uma destinação correta para tal agrura. É comum moradores relatarem mau cheiro e já terem presenciado várias exumações.   

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.
Rua João de Paula Filho, Centro - Uruburetama-Ce. Via frontal de acesso ao cemitério.  

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.
Travessa Alcídes P. Gomes, Centro - Uruburetama-Ce. Via lateral de acesso ao cemitério. 

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.
Rua da Paz, Centro - Uruburetama-Ce. Via traseira de acesso ao cemitério. 

No que diz respeito a parte religiosa, o local recebe um grande número de pessoas entre os dias 01 e 02 de novembro, dia de todos os santos e de finados, respectivamente. Dias estipulados pela a igreja católica romana. Esses dias, em décadas passadas eram como se houvesse um grande evento na cidade. Pessoas de outros locais vinham a cidade para homenagear seus entes falecidos, levando-os flores, acendendo velas e fazendo orações. Por muito tempo, nesses dias, crianças faziam guerras de bolinhas de cera e jogavam nos visitantes. Apagavam as velas ou tiravam de uma tumba para pôr em outra. Era preciso a polícia intervim em alguns casos. O local durante os dois dias ficava aberto o dia todo até as 22:00 horas e muitos aproveitavam para um passeio, uma guerra de bolinhas de cera e encontrar amigos para uma conversa. Eram muitos os barulhos que se ouviam. Essa prática vem desaparecendo nos últimos anos. No dia de finados é celebrado tradicionalmente no local uma missa às 6:00 horas da manhã em homenagem a todos os munícipes que lá se encontram. 

Foto: Kairo Mendes.

Foto: Kairo Mendes.

No ano de 2012 foi construída pela a paróquia de São João Batista uma capela titulada "Capela da Esperança" na parte exterior para abrigar os velórios, antes essa prática era feita na Igreja Matriz da cidade, por questões de saúde pública dos fiéis e recomendação da Diocese de Itapipoca foi feita essa transferência. A capela tem como objetivo principal abrigar corpos velados por familiares de moradores locais sem muito espaço em suas residências, por moradores das serras e distritos mais afastados da sede e por pessoas de outras cidades distantes. A capela foi inaugurada no dia de finados em 02 de novembro de 2012 por iniciativa do então pároco Pe. Pascoal Rios Osterne e Pe. Antonio Agenor Matias, sob orientações do bispo Dom Frei Antonio Roberto Cavuto. Construída por recursos de doações da comunidade em geral, tendo uma equipe de liderança composta por: Maria das Dores Teixeira Miguel, Luiz Gustavo Coelho Costa, Mirian Barroso Braga Coelho, Flaelson Félix de Sousa (Lé), Maria de Fátima Gomes de Castro Sousa, Elton Nascimento Freitas e Clauddyane Forte de Morais Freitas. 

Foto: Kairo Mendes.  2012.

Foto: Kairo Mendes.  2012.

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.
Capela da Esperança

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.
Interior da Capela da Esperança. A mesma possui um serviço de copa e um banheiro em seu interior. 

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.
Placa de Inauguração da Capela da Esperança disposta no interior da mesma. 

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.
Placa de Colaboradores da Construção da Capela da Esperança 

Outro fato de destaque da Capela é no centro próximo ao altar, onde foi construído em 2019, um túmulo a pedido do Pe. Pascoal Rios Osternes, padre emérito da paróquia que possui um desejo de ser enterrado no local. 

Foto: Kairo Mendes. 2019. 

Foto: Kairo Mendes. 2019. 

Foto: Kairo Mendes. 2019. 

Foto: Kairo Mendes. 2019. 

Foto: Prof. Paulo Mattos. 2020.

Um som muito típico da cidade era ouvido quando aconteciam os enterros: badalos do sino da Igreja Matriz. Aquele som avisava a todos os moradores que alguém estava sendo enterrado. Era um som penoso que já deixavam todos com uma certa tristeza e ao mesmo tempo uma curiosidade para saber de quem tratava-se. Cidades do interior todos se conhecem, por isso a curiosidade é muito comum e prestar solidariedade aos familiares também.

De acordo com o IBGE de 2014, a população total do município é de 20.991 habitantes, possuindo apenas esse cemitério e um outro de pequeno porte no distrito de Santa Luzia. Há promessas políticas de longas datas para a construção de um novo cemitério. O povo local convive há muito tempo com essas promessas que não se concretizam. Há mais de um século e meio não houve uma iniciativa pública nem privada para a construção de um novo cemitério na cidade para suprir essa necessidade. No cemitério atual é visível sua falta de espaço e suas inúmeras necrópoles com jazidos que dificultam o acesso de passagem. É preciso um olhar mais sensível do poder público ou privado que queira investir nessa área no município. Também a sociedade civil organizada precisa reivindicar o direito de um novo espaço para enterrar com dignidade seus mortos. Outra preocupação é que em 2020 vive-se uma grande pandemia da Covid-19 e se por um acaso a cidade fosse acometida de um grande número de vítimas ou se uma catástrofe ou algo do tipo se sucedesse na cidade o cemitério público municipal não estaria preparado para receber um grande números de mortos. Isso é preocupante e ao mesmo tempo faz-se pensar numa organização prévia para o município.


Resolvi escrever sobre esse fato para não deixar morrer e enterrar a história local. É preciso que essa geração e outras vindouras saibam sua história, bem como é preciso preservar as memórias das gerações passadas para que não se percam no tempo. Como professor de História, pesquisador e cidadão uruburetamense disponho ao mundo mais uma história do município em suas facetas sentimental, histórica, cultural e religiosa. Foi uma pesquisa demorada e minuciosa com entrevistas a vários moradores locais, junções de depoimentos, pesquisas bibliográficas, pesquisas fotográficas e outros meios para se chegar a esse produto final. Tenho como objetivo fortalecer a história local e democratizá-la para que todos tenham acesso virtual e possam utilizá-la como fonte de pesquisa.  


Fonte Bibliográfica: Soares Bulcão - Revista Trimensal - Seção: Arraial (Villa de S. João da Uruburetama), págs. 145 - 178.  


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Comentários

  1. Foi bastante interessante está relato da história do comentário de Uruburetama onde absorvi informações importante que não sabia.

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  2. Como é bom conhecer um pouco d história da cidade em que vivemos, você está de parabéns por essa iniciativa Paulo, de nos presentear com esse conhecimento e nos mostrar quanto ainda estamos longe de conhecer o lugar em que vivemos.

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    1. Agradecido! A intenção é essa, de fazer conhecer e preservar a nossa história local.

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  3. Amei saber da história da minha última morada🙏🙏🙏

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  4. Gostei desta história ,linda sobre Uruburetama nunca vou esquecer, pois minha mãe está enterranda aí saudade assi Milena 😥😥😥😥

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